Decisões Estratégicas – Emoção Vs. Razão?

19 11 2009

Gonçalo Garcia

Durante os últimos meses temos vindo a assistir a uma evolução interessante do sector turístico nacional. Um pouco à semelhança das premonições faraónicas, onde ciclos de boas colheitas com duração de 7 anos, caracterizados por “vacas gordas”, eram precedidos por ciclos de secas extremas de igual período caracterizados por “vacas magras”, também o turismo nacional tem observado comportamentos idênticos.

Apesar da analogia não ser a mais apropriada, em termos de duração dos ciclos, é totalmente adequada no que concerne ao principio da informação. Já naquele tempo, os faraós tinham a capacidade de repensar a forma como distribuíam o resultado das colheitas dos ciclos positivos, preparando o reino para ciclos negativos.

A grande diferença entre aquela era e os dias de hoje, é o facto de já não se recorrer (pelo menos com tanta frequência) a feiticeiros ou intérpretes de sonhos para se decidir que acções tomar no futuro, suportando-se em contrapartida na informação recolhida junto do mercado.

Foi com base neste princípio enquadrado pela responsabilidade assumida em participar no desenvolvimento sustentável do turismo, apoiado igualmente pelo reconhecimento que temos vindo a registar por parte dos empreendedores de projectos turísticos em Portugal para a necessidade de re-pensar e re-adaptar os seus projectos de modo a irem ao encontro das expectativas do turista do Século XXI, que instituímos um conjunto de medidas capazes de “radiografar” e caracterizar o mercado turístico nacional.

As iniciativas estendem-se desde a aferição dos índices de confiança ao nível do turismo residencial, passando pela caracterização do perfil de potenciais compradores de imobiliário turístico, à monitorização de indicadores chave da performance turística, como é o caso de ocupações, preços médios, movimentos de aeroporto e outros. Neste âmbito, e rompendo com a demagogia já existente no capítulo das análises de mercado, temos vindo a observar com regularidade indicadores que de forma indirecta demonstram a “saúde” do turismo nacional, como é o caso das visitas a monumentos ou até mesmo o volume transaccionado de doçaria típica da cidade de Lisboa.

É legitimo questionarmos a utilidade da informação produzida. Sabendo que na grande maioria dos projectos turísticos nacionais, existe uma elevada ligação emocional dos empreendedores ao seu projecto, não é menos verdade que em última instância é sempre o mercado a ditar a adequabilidade desse mesmo projecto, conferindo-lhe no fim um “selo” de sucesso ou insucesso. E é precisamente devido a este factor, que a informação de mercado assume um papel preponderante em qualquer decisão estratégica.

Independentemente da fase em que o projecto turístico se encontre, seja em concepção, em construção ou em exploração, agravado pela volatilidade recente do mercado turístico, e pela quase obrigação de repensar a estratégia a seguir, que a informação de mercado surge como um suporte racional na definição do “caminho” a seguir.

Como exemplo, destaca-se a iniciativa recente da caracterização do perfil do potencial comprador de imobiliário turístico no Alentejo. Sendo esta uma região com reconhecido elevado potencial, e possuindo actualmente alguns projectos com componente de turismo residencial desenvolvidos à semelhança de produtos baseados em mercados distintos como o Algarve, as conclusões obtidas indiciam que o perfil dos potenciais compradores não se encontra perfeitamente alinhado com a oferta de produto existente e disponível.

Esta razão estabelece, a par com o abrandamento económico, um justificativo para a dificuldade na colocação dos produtos no mercado. Por outro lado, determina claramente quais os produtos de turismo residencial mais apropriados às características do mercado actual, estabelecendo linhas de orientação para todos os projectos que se encontram em fase de concepção, ou em condição de revisão. Esta é uma situação evidente, onde a mais-valia da “razão” justificada pela informação de mercado, se sobrepõe à emoção de constituir um produto turístico assente em “feelings”.

Por outro lado, iniciativas com o intuito de monitorar a performance da operação hoteleira em regiões estratégicas do país, como é o caso do Algarve, são igualmente úteis no que concerne à partilha de uma visão correcta, ponderada e isenta de histerismos da real condição do mercado, possibilitando deste modo o estabelecimento de uma linha de orientação sobre a qual os estabelecimentos hoteleiros poderão aferir o seu posicionamento face ao mercado. Num destino maturado como o Algarve propicio à transacção de activos imobiliários, é fundamental possuir conhecimento preciso de mercado de modo a potenciar apropriadamente a concretização deste tipo de oportunidades de negócio.

Assim, entende-se que possuir a capacidade de observar o mercado, interpretá-lo e compreender as mensagens que este nos transmite é fundamental para qualquer tomada de decisão consciente. Certo é que, seja qual for o negócio, existe sempre um certo nível de risco e incompreensão, podendo e devendo porém, ser colmatado com informação fidedigna e estratégica sobre os principais aspectos do mesmo, nomeadamente tipo de produto a oferecer e modelo de negócio a seguir.

É neste sentido que o acompanhamento regular dos principais vectores do sector turístico nacional, nos diferentes destinos e produtos que constituem o Produto Portugal, se assume como determinante na evolução turística, providenciando informação / orientações actualizadas sobre como agir face às condições de mercado.

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One response

24 11 2009
olivier P. Soares

Boa Gonçalo ! Em grande estilo e sempre com contéudo de interesse.
Grande abraços,
Olivier

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