Simon Punter explica Laboratório de Turismo Cultural

16 07 2010

Simon Punter

Como nasceu a ideia de criar na ILM um Laboratório de Turismo Cultural?

Desde 1999 que a ILM desenvolve exclusivamente projectos de turismo, sejam estes de puro planeamento turístico (a nível macro) ou hoteleiros, resort, golfe e spa, por exemplo. Ainda que a sua notoriedade e curriculum estejam muito associada ao desenvolvimento de resorts integrados, a nossa ligação e o nosso compromisso é com o desenvolvimento sustentável do turismo em Portugal, e é esse compromisso que tentamos sempre respeitar quando estamos a trabalhar num novo projecto independentemente do seu tipo e que já tem incluído âncoras de desporto, saúde, retalho e por aí fora .

Foi esse nosso compromisso e a capacidade de pensar “out of the box” que, perante a necessidade, no final do ano passado, de re’pensar o projecto de um cliente privado, nos levou a eleger toda a componente histórica e cultural da envolvente para o diferenciar e o desenvolver enquanto catalisador de desenvolvimento sócio económico da região onde está instalado.

Algo que já fazíamos, mas que neste caso em concreto assumiu uma proporção que depressa nos permitiu identificar a oportunidade de levar a questão integração cultura, património e turismo a um patamar mais alto.

Ao ponto de criarem uma unidade de negócio dedicada?

Não como uma unidade de negócio. O Grupo ILM já é composto por três unidades de negócio distintas, a ILM Advisory que assume o papel de consultoria tradicional na área de turismo e continua ser o motor do grupo, a NEX que se dedica ao “development management” e que dá continuidade, através da implementação, ao serviço de consultoria prestado, e a VHM que assegura o asset management ou seja as operações, completando o A- Z de serviços que o Group ILM oferece.

O Laboratório de Turismo Cultural é uma iniciativa da ILM Advisory que tem por base a aplicação prática de uma filosofia transversal a todas as unidades de negócio.

Mas isso justifica a ILM ter recursos dedicados a essa área?

Acima de tudo fazemos master planning para o turismo, ou seja todo o planeamento dos recursos e experiências tendo por base as diferentes necessidades dos mercados. Este trabalho vai desde a análise de mercado, à criação de conceitos e business planning de destinos, produtos, serviços viáveis e sustentáveis. Acreditando que a vertente histórica e cultural local é o factor que garante a cada vez mais valorizada Autenticidade e que deverá ser a base do desenvolvimento turístico sustentável, estamos a investir em particular no desenvolvimento de conhecimentos nesta área dentro da nossa Equipa.

Como a “cultura” é uma área muito vasta, estamos também a rodear-nos de um conjunto de parceiros especialistas que já se habituaram a trabalhar nas nossas equipas constituídas  em função das exigências de cada projecto.

O Simon é o responsável interno por esta área. Isto é fruto da sua formação?

Não. Curiosamente a minha base é agrícola, com um mestrado em gestão feito a posteriori! Aqui temos um grupo de especialistas que trabalha em equipa connosco e a sua integração é total, trazendo simultaneamente um conhecimento de nível mundial sobre as questões específicas da integração do património e cultura na operação turística. Deste grupo de especialistas saliento a HayleySharpe Design, um dos principais projectistas e desenhadoras de exposições e interpretações museológicos e de património a nível mundial, e a ERA que nos traz o conhecimento da realidade nacional com credibilidade técnica na área de arqueologia e património e a Leisure Catalyst que traz a experiencia operacional ganhe em vários partes do mundo e que coloque em perspectiva da sustentabilidade económica as ideias e soluções que produzimos.

Mas porquê a aposta em concreto no turismo cultural?

O Touring Cultural e Paisagístico foi identificado pela ILM e pela  THR, no âmbito do PENT, como um dos 10 produtos de desenvolvimento estratégico em Portugal, sendo aquele que é transversal a todas as regiões. Mas perante a situação actual do seu desenvolvimento as oportunidades residem na estruturação destes recursos, na sua optimização e consequente sustentabilidade económica, na adequação da operação às necessidades e expectativas do turista do séc. XXI.

E acredito piamente no potencial da cultura enquanto recurso diferenciador no mapa turístico mundial. A cultura é o factor endógeno de cada destino.

Numa altura em que o mercado turístico internacional procura autenticidade, experiencias únicas e memoráveis a cultura é aquilo que melhor responde à essa procura, e onde felizmente a Portugal tem uma abundante matéria-prima.

Numa visão macro, os destinos turísticos estão a ficar cada vez mais homogéneos, e o pormenor é o que motiva o potencial cliente na sua procura do local para férias. Aqui entram os seus argumentos culturais diferenciadores, sejam eles ligados a património, tradições, festas, historias e lendas etc….. O potencial em Portugal é enorme, e não precisamos de inventar nada porque é genuíno e existe. Falta sim é de estruturá-lo, integrá-lo e promovê-lo de forma eficaz e eficiente.

Porque só agora esta valorização nacional, por definição a cultura é uma qualidade enraizada no país há muitos anos?

Pois é, não basta criar um plano estratégico para o país onde este produto consta para que este se torne uma realidade. Urge haver uma integração efectiva na cadeia de valor da experiência turística que propicie o desenvolvimento deste, ou qualquer outro produto.

Portugal, no seu contexto internacional é olhado como um todo. Acredito que o turista potencial não olha apenas para os atributos do hotel onde vai ficar alojado ou a praia que quer visitar ou o campo de golfe onde quer praticar, mas também, e de forma crescente, para factores como a riqueza natural e paisagística da envolvente, as características da população local, a segurança, a língua, os costumes etc. Enfim, “n” factores mais ou menos racionais e objectivos que todos nós computamos quando olhamos para um país. Hoje em dia vivemos numa economia de experiências onde cada um destes factores é cada vez mais relevante.

A valorização da cultura de um país é, quanto a mim, sinonimo do amadurecimento do seu povo, e é com orgulho que testemunho Portugal a dar cada vez mais importância ao seu património cultural e participo nesse processo. É certo que ainda estamos longe de atribuir ao património o valor que, como Inglês, vejo acontecer no meu país há muitos anos, mas caminhamos em Portugal no sentido certo.

Trata-se de um calvário de várias gerações, não?

Não, e por várias razões.

Se o número de visitantes nacionais aos museus e monumentos ainda não promove grande entusiasmo, e de facto há muito para melhorar nessa área, as bases de “awareness” e respeito pelos valores associados à cultura já estão em franco desenvolvimento. Os números virão a seguir, creio.

Os actuais responsáveis do sector têm uma nova dinâmica fundamentada no que chamo “visão mundo” além, naturalmente, das suas competências técnicas. Têm projectos e objectivos aliados a um pragmatismo como base bem como a humildade para aprenderem e tirarem o máximo partido de casos de “benchmarking” internacional, muitos dos quais já conhecem pessoalmente. Por este conjunto de razões, acredito daré frutos importantes ao país num futuro que se perspectiva próximo.

Mas há outra razão. Na ILM criámos um modelo de desenvolvimento do património cultural em termos turísticos, ao qual chamamos “Cultural Experience HUB” e que acreditamos vai, aliás está já, a fazer a diferença. É nesta abordagem sistematizada do turismo e cultura que o nosso conhecimento de business planning e o nosso compromisso com a sustentabilidade conseguiu trazer uma visão diferente das necessidades e sinergias possíveis de ambas as áreas. Não é exactamente o Ovo de Colombo, mas uma solução prática, económica, e com efeitos multiplicadores para turismo, cultura e para as comunidades onde é aplicado e onde desenvolvemos desde o Norte a Sul do país com intervenções várias, destes podemos destacar o trabalho terminado recentemente na região do Côa para uma entidade estatal, que teve por fim desenvolver uma avaliação estratégica de uma infra-estrutura cultural há muito planeada enquanto componente âncora de afirmação da região enquanto destino turístico. Esta avaliação estratégica compreendeu uma revisão e analise de todos os factores relevantes à operacionalização sustentável deste equipamento e sua consequente integração com o sector do turismo. No desenvolvimento do seu trabalho a ILM defendeu que este equipamento, pelas suas mais diversas características e interesse histórico cultural, deveria ser potenciado e elevado no sentido de se tornar uma atracção “must see” por si só, capaz de atrair uma procura local, nacional e até mesmo internacional, servindo de âncora catalisadora para o desenvolvimento do turismo local, provocando um efeito turístico multiplicador com impacto sócio económico de mensurável sucesso. O nosso Laboratório de Turismo Cultural, esteve também recentemente a trabalhar com a Plataforma Intermunicipal das Linhas de Torres no sentido de avaliar o actual estado do património das Linhas Defensivas de Torres, os objectivos e a situação do programa de recuperação em curso, e identificar as diferentes soluções de desenvolvimento das mesmas enquanto produto turístico viável e integrado.

O Cultural Experience HUB faz o quê então?

Em suma, o HUB, tal como um hub nos aeroportos, recebe passageiros, alberga as chegadas e informa-los sobre as suas opções para continuar a sua viagem, disseminando-os para novos destinos. Aplicado à cultura, existe uma componente âncora física e virtual que deverá se criada e operada como uma verdadeira «“Must See Visitor Attraction” como nos a chamamos, e que é ponto de visita obrigatório – o “aeroporto” se quiser. A Fortaleza de Sagres ou Castelo São Jorge por exemplo – lugares onde todos os visitantes à zona vão. Chegados aí, o visitante tem de ser positivamente surpreendido e entretido e informado sobre a própria atracção e sobre os demais recursos e experiências da região. Como sabe, tão bem como eu, estes monumentos actualmente não correspondem às expectativas do turista e o único consolo é a vista que eles proporcionam. É um potencial subaproveitado em termos de aproveitamento turístico.

Mas a matéria-prima é de excepção e deve ser potenciada enquanto experiencia positiva, única, memorável, bem como informar e estimular os visitantes a conhecer outros recursos na região – conhece por exemplo a importância dos menires de Vila do Bispo, ou das ostras e dos percebes na Costa Vicentina, as suas festas e tradições, a gastronomia etc? Eu também não conhecia, tal como as outras centenas de milhares de visitantes que se dirigem anualmente à fortaleza de Sagres (curiosamente o lugar mais visitado do Algarve). Depararmo-nos com uma situação destas é triste pelo desperdício de oportunidade que representa  no desenvolvimento económico local. O HUB integra e potencia a oferta local na lógica que o todo vale mais do da soma das partes, com as repercussões no alojamento e pequeno comércio local, na preservação dos hábitos e costumes. Uma mais-valia cultural, turística e socioeconómica através de uma abordagem sustentável, eficaz e eficiente, isenta de custos de implementação megalómanos.

Mas este modelo pela sua abrangência estruturante, tem de envolver os sectores privado e público, certo?

Sem dúvida, e só com o “buy-in” de ambos funciona.

Então têm experiência de trabalhar também com o sector público?

A nossa experiência de trabalhar neste sector vai desde trabalhar com as câmaras, e associações municipais até trabalhos feitos directamente para o próprio Estado. Acredito, baseado nestas experiencias que tivemos desde o norte ao sul do país, que existe uma nova abertura em todos os níveis das hierarquias propício ao desenvolvimento da relação entre turismo e cultura.

Outro aspecto curioso é o compromisso e dedicação que temos encontrado naqueles que trabalham neste sector da cultura. Existe um entusiasmo, diria vocação que é característica especial deste sector e com o qual dá gosto estar associado.

E o turismo vem atrás da cultura. É esta a proposta?

Não. São áreas que se complementam. O turismo precisa dos recursos culturais para dar resposta às necessidades do turista e a cultura precisa da procura turística para se tornar economicamente sustentável e ser elevada ao patamar da excelência. Esta integração provoca um importante efeito multiplicador. A simbiose entre turismo e cultura deve ser uma situação win-win para ambas. Mais turistas provocam melhores condições e justificam mais investimento no património, mais e melhores experiências culturais vão automaticamente atrair mais turistas, e por aí fora. Um círculo virtuoso em princípio.

O problema da cultura tem sido sempre o mesmo – financeiro.

O orçamento da Cultura neste país ronda 0,1% do PIB se não estou em erro. Do Turismo é maior com certeza mas, mais próximo da realidade é o sistema de incentivos do QREN. O Touring Cultural é o único dos 10 produtos estratégicos do PENT transversal a todas as regiões do país. O turismo precisa da cultura, e vice-versa. Existe já um reconhecimento do potencial que esta simbiose representa para o país e este está reflectido no sistema de financiamento. Tenho fé nele.

Não nos podemos esquecer que o QREN será provavelmente a nossa última dentada no “bolo” e está com uma taxa de execução preocupadamente baixíssima. É uma oportunidade para dinamizar dois sectores importantíssimos para o país e não desperdiçar as verbas disponíveis.

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4 responses

16 07 2010
Tweets that mention Simon Punter explica Laboratório de Turismo Cultural « I-blog -- Topsy.com

[…] This post was mentioned on Twitter by ritaantonietaneves, ILM Group. ILM Group said: Simon Punter explica Laboratório de Turismo Cultural: http://wp.me/ptL57-3I […]

17 07 2010
Frederico Santos

A excelente ideia do Laboratório de Turismo Cultural parece ser de outra galáxia, para quem conhece a realidade da promoção do turismo de Portugal além fronteiras.

O desinvestimento na promoção do destino Portugal ao longo da última década tem sido humilhante, se bem que nunca tenha havido uma estratégia de investimento sério e profissional. Todos os que já frequentámos as grandes mostras que são as feitas de turismo de Berlim, Londres, Madrid, Estocolmo ou Moscovo, além da BTL de Lisboa, sabemos bem que tudo se resume a um grupo de funcionários administrativos mais ou menos jovens e com maior ou menor responsabiliadade que se reunem para tomarem uma bebida e partilhar algumas refeições em conjunto durante um par de dias. Os resultados em termos de contratos resumem-se à apresentação da nova lista de preços TO aos operadores que já operam com o destino. Não existem meios nem estratégia de captação de novos operadores, de apresentação profissional de novas unidades, ou de introdução de novos atractivos capazes de atraírem mercado diversificado.

Infelizmente, os Portugueses não dispõem de meios materiais nem de cultura profissional que permitam promover de uma forma apropriada novos destinos ou novas ideias. Estando a promoção turística grademente dependente da colaboração com as entidades oficiais portuguesas, esta dependência impede qualquer sucesso. E as entidades privadas não dispõem dos meios financeiros que lhes permitam enfrentar sozinhos tamanha tarefa.

Tentar criar uma simbiose entre cultura e turismo, e divulgá-la no estrangeiro junto dos operadores turísticos de maior importância é uma tarefa que requereria muito mais do que aquilo que o país pode e sabe fazer. Mas que prova que ainda há gente em Portugal com ideias positivas.

4 08 2010
ILM Advisory

Caro Frederico muito obrigada pela atenção. O Laboratório de Turismo Cultural rege-se por uma filosofia de planeamento e consequente desenvolvimento turístico integrado e sustentável do território,tendo por base os valores endógenos locais, nomeadamente os recursos históricos, culturais e paisagísticos.

Este exercício de planeamento integrado implica a criação de ferramentas que agilizem o desenvolvimento de produtos turísticos integrados competitivos e atraentes que os profissionais de turismo, precisam para vender o destino, com a mais valia de tornar toda a informação do destino mais disponível e acessível, logo capaz de atrair e dar resposta às necessidades do turista individual.

25 11 2010
Especial – Seminário Promover Turismo. Capitalizar Cultura « I-blog

[…] Simon Punter explica Laboratório de Turismo Cultural Desde 1999 que a ILM desenvolve exclusivamente projectos de turismo, sejam estes de puro planeamento turístico (a nível macro) ou hoteleiros, resort, golfe e spa, por exemplo. Ainda que a sua notoriedade e curriculum estejam muito associada ao desenvolvimento de resorts integrados, a nossa ligação e o nosso compromisso é com o desenvolvimento sustentável do turismo em Portugal, e é esse compromisso que tentamos sempre respeitar quando estamos a trabalhar num novo projecto independentemente do seu tipo e que já tem incluído âncoras de desporto, saúde, retalho e por aí fora . […]

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