Turismo, sustentabilidade, cultura e património

26 10 2010

Nelson Carvalheiro

A noção de sustentabilidade da cultura e património enquanto negócio não é nova em Portugal, havendo claramente casos de sucesso como por exemplo a Fundação Serralves ou a Parques Sintra Monte da Lua. No entanto estas são ainda excepções uma vez que a maioria das atracções culturais apenas mantém portas abertas por via de financiamento/subsídio, seja ele local ou central.

Torna-se pertinente constatar alguns factos: 1)A Cultura representa apenas 1,7% do valor do OE que é distribuído por cada entidade dependente do Ministério da Cultura; 2)No caso do IMCInstituto de Museus e Conservação, apenas 38% do total de proveitos são gerados por actividade própria, traduzindo-se em dependência completa por financiamento/subsídio do Estado; 3)O valor correspondente às 34 dependências da Rede Nacional de Museus sob a responsabilidade do IMC, no ano de 2009, não foi suficiente para cobrir as despesas com as remunerações com o pessoal, sendo ainda necessário executar 28% das receitas próprias geradas pelas 34 dependências; 4)A rede nacional de museus registou 2.382.182 entradas em 2009 (um aumento de 12% em relação a 2008) sendo que 62% são gratuitas e 30% das pagas são feitas com 50% de desconto; 5)A soma de visitantes dos equipamentos CCB, Fundação Serralves, Parques de Sintra totaliza cerca de 2.200.000 visitantes por ano.

Tomemos como perspectiva o exemplo do Reino Unido e a sua estratégia concertada para tornar o património e a cultura como um veículo de desenvolvimento. O turismo de base cultural e patrimonial representa uma parte importante na actividade económica do Reino Unido (5ª maior em contribuição para o PIB). Instituições como o VisitBritain, Heritage UK, TheNationalTrust e Heritage Lottery Fundation são precursores de uma política e estratégia sustentável de dinamização do património e cultura para o turista do sec. XXI, onde a interacção pessoal, o storytelling, as experiências e a tecnologia dão resposta às necessidades, curiosidades e expectativas deste visitante.

A capacidade de planear e organizar uma estratégia, envolvendo todos os stakeholders de uma atracção de visitantes (Visitor Attraction), é a chave do sucesso, obrigando a operação destes equipamentos, como em qualquer outro negócio, a uma orientação para a competitividade, garantindo a necessária viabilidade económica da atracção cultural e patrimonial.
Portugal, país com um património e cultura física e imaterial formada durante 900 anos, apresenta um potencial ímpar para o desenvolvimento da actividade turística em torno destes recursos e é de notar e dar valor ao esforço que as instituições centrais e regionais estão a realizar com o intuito de transformar atracções culturais e de património em espaços vivos. O futuro do turismo de base cultural tem de passar pelo fortalecimento desta filosofia e estratégia de dinamização e optimização do potencial de adaptação do património e cultura em “Visitor Attractions” de sucesso. E esta realização não pode depender apenas da disponibilidade financeira do Estado e Autarquias, sendo peremptório a criação de mecanismos que permitam o envolvimento das mais variadas entidades e “stakeholders” neste desenvolvimento. Parcerias, sociedades gestoras e fundações são exemplos de entidades que poderão ser dotadas das capacidades estratégicas, planeamento e gestão do negócio de modo a transformar a atracção cultural numa “Visitor Attraction” de grande interesse turístico, promovendo a autenticidade, a originalidade e a história cultural e patrimonial de Portugal. Não obstante a atracção cultural poder ser o principal motivo de visita, há nesta lógica a oportunidade de promover a gastronomia, artesanato e hotelaria local, e a participação em actividades e experiências na região.

A integração de diferentes experiências potencia o número de visitantes, contribuindo para o aumento das receitas e autonomia do equipamento e das diferentes actividades de suporte (restauração, alojamento, artesanato, “Tours”, actividades entre outros). Com este aumento da receita, novos investimentos poderão ser efectuados tornando-o mais dinâmico e atractivo, garantindo a sua manutenção, competitividade e visibilidade no mercado.

Em forma de conclusão, saliento a importância do planeamento, da estratégia e da visão em função da experiência do visitante. A incorporação de Equipas gestoras profissionais é essencial para que a estratégia e o planeamento sejam exequíveis, gerindo uma atracção cultural como um negócio que não tem apenas que sobreviver, mas sim afirmar-se no mercado, através da criação de mais-valias para o negócio e comunidade.

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Informação

5 responses

28 10 2010
Luís Mota Figueira

Excelente iniciativa e eventual catalizador de uma rede «efectiva» de turismo e turismo cultural. Desejo os melhores êxitos ao vosso trabalho.

28 10 2010
nelsoncarvalheiro

Caro Luís

Obrigado pelo o seu comentário e interesse neste tema.

O seu incentivo para o trabalho e esforço que estamos a desenvolver nesta área é muito importante.

Noto que enviou um email acerca do Seminário Promover o Turismo. Capitalizar a Cultura. Estamos neste momento a ultimar preparativos e certamente será informado de mais detalhes brevemente.

Espero ter a oportunidade de trocar impressões consigo numa próxima oportunidade.

Nelson Cavalheiro

28 10 2010
Tweets that mention Turismo, sustentabilidade, cultura e património « I-blog -- Topsy.com

[…] This post was mentioned on Twitter by ILM Group, ILM Group. ILM Group said: Turismo, sustentabilidade, cultura e património: http://wp.me/ptL57-5B […]

22 11 2010
josé amador

Em primeiro lugar, realçar o facto de finalmente os responsáveis pela actividade turística do nosso País terem desde há alguns (poucos) anos a esta parte chegado à conclusão que essa actividade não se resume apenas a clima, golf e praia mas também ao património no seu conjunto como o artesanato e a gastronomia mas também o património monumental, como arqueológico e artístico nas diversas valências, e as paisagens culturais como a de Sintra e a do Douro.
Parece-me que há duas vertentes que são aqui afloradas em relação ao turismo sustentabilidade: uma que é auto sustentável e outra (a maior parte) que não é.
Se a Fundação de Serralves, o CCB são sustentáveis, não podemos esquecer que parte dessa sustentabilidade tem uma comparticipação significativa do Ministério da Cultura equivalente àquela que é dada para a sustentabilidade dos cerca de 30 museus que estão sob a tutela daquele ministério. Raros os museus que sustentam como o caso do museu dos coches. mas parte da verba que recebe com a entrada de visitantes é para ser redistribuída pela maioria dos museus que não sobrevivem com receitas próprias.
Posto isto, há que criar novos modelos de gestão que não sejam centralizadores. As autarquias e outras entidades locais, publicas e privadas certamente que terão um papel bem mais dinamizador na gestão dos museus locais e regionais do que a sua dependência do centralismo do palácio da ajuda.

25 11 2010
Especial – Seminário Promover Turismo. Capitalizar Cultura « I-blog

[…] Turismo, sustentabilidade, cultura e património A noção de sustentabilidade da cultura e património enquanto negócio não é nova em Portugal, havendo claramente casos de sucesso como por exemplo a Fundação Serralves ou a Parques Sintra Monte da Lua. No entanto estas são ainda excepções uma vez que a maioria das atracções culturais apenas mantém portas abertas por via de financiamento/subsídio, seja ele local ou central. […]

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