O património cultural é único a cada país e espelha a sua identidade (turística)

17 11 2010

Leading Sustainable Tourism2

No final de 2009, a ILM decidiu avançar com a criação de um Laboratório de Turismo Cultural (LTC) concentrando esforços internos e reunindo um conjunto de parceiros especialistas em áreas como o planeamento, design, sustentabilidade e operação de “heritage visitor attractions”, no desenvolvimento de uma abordagem crítica de análise e optimização e valorização do património histórico cultural nacional. Apesar de Sagres, Sintra e Belém serem dos locais mais visitados do país, com milhões de turistas, estão sub-aproveitados ao nível do contributo que dão à projecção da imagem nacional e ao nível das das receitas que conseguem gerar. Esta é a visão dos responsáveis da ILM, Andrew Coutts e Simon Punter (responsável pelo Laboratório), que, nesta entrevista, defendem que o Património Histórico Cultural nacional é sem dúvida o nosso recurso mais valioso e com maior potencial de desenvolvimento enquanto argumento de captação de turistas e de posicionamento autêntico e diferenciado do destino Portugal no mapa turístico internacional.

AMBITUR O Grupo ILM está a apostar numa nova área de actuação, a que diz respeito?
ILM – A nossa aposta no LTC tem por base a consciência do estado actual de subaproveitamento do património nacional enquanto âncora de desenvolvimento económico e social, ou seja enquanto atracção de visitantes competitiva, sustentável e fiel aos factos histórico e culturais que lhe deram origem. É um facto que temos um património com um potencial enorme para ser uma âncora de desenvolvimento, com um efeito multiplicador na economia e sociedade. A sua optimização permitirá, por um lado, envolver a sociedade na sua preservação e dinamização e por outro lado captar e reter um turista informado e motivado para entender e divulgar mais sobre o país.

Nos últimos anos tem se verificado um movimento internacional crescente neste sentido. Veja-se por exemplo a aposta feita em Inglaterra pelo Estado, através de vários fundos, no património. Desde castelos a centros de interpretação, entre outros, procurou-se dar um novo ângulo de abordagem ao património e turismo. Ou seja, existem agora em Inglaterra “heritage visitor attractions” (museus, castelos, entre outros) que são infra-estruturas fundamentais em qualquer destino. Temos recursos, infra-estruturas base, mas falta uma reengenharia do património, na óptica do visitante, por forma a optimizar a sua performance e a experiência do visitante, seja este local, nacional ou internacional. O que se pretende é que um visitante tenha uma experiência autêntica, memorável, educativa e de entretenimento q.b. seguindo a tendência internacional de “culturtainment”. Esta abordagem operacional vai resultar na captação de um maior número de visitantes qualificado que vão querer explorar a componente histórica e cultural, e que ao saírem satisfeitos com a(s) experiência(s) vão passar a palavra. A arte reside na capacidade de elevar o património, operando-o enquanto uma “visitor attraction” sem comprometer a sua nobreza ou desvirtuar o seu papel.

A questão de se tornar uma “visitor attraction” é mesmo importante, e peço desculpa por utilizar esta denominação tão funcional na língua inglesa e para qual desistimos de procurar a tradução adequada. E a nossa referência a “visitor attactions” tem por base o património, onde a reengenharia do mesmo (restauro, sinalética, informação, exposições, interactividades e mutações dos mesmos etc.) permite tornar a experiencia do visitante ao património mais atraente, gratificante e por sua tenha provoque um efeito positivo na rentabilidade do mesmo.

Portugal tem que parar e analisar qual a percepção que existe do país ao nível externo. Sol e Mar, Golfe, MI, obviamente, sempre foram e sempre serão importantes. Mas Portugal tem a oportunidade de explorar activos base que podem realmente marcar a diferença, e esta é uma oportunidade ímpar. Se temos este património, de museus a castelos, construções romanas, entre muitos outros exemplos de uma longa lista, temos que repensar como podemos usar este manancial na óptica do visitante tendo por objectivo uma sustentabilidade de excelência.

O património (leia-se património edificado) em Portugal foi ignorado durante anos. Isto pode constituir uma vantagem por não ter tido um excesso de intervenções que comprometeram as suas inerentes qualidades. Associando este estado “original” com uma procura turística que busca conhecimento e autenticidade, permite concluir que estamos perante uma oportunidade única para o país desenvolver este argumento e para atrair novos mercados através desta diferenciação.

Podemos aqui criar uma dinâmica de investimento que tem um enorme impacte económico e social na envolvente. Por exemplo, o investimento feito em Foz Côa deverá servir para ancorar um novo desenvolvimento da actividade económica nesta região. Não basta criar um museu standard. É necessário desenvolver um plano operacional de integração deste activo com o verdadeiro museu arqueológico que é o Parque Arqueológico do Vale do Côa e com todos os recursos turísticos da sua envolvente, ou seja, este tem de ser operado como uma “visitor attraction”, para que consiga proporcionar uma experiência marcante ao visitante, na óptica do ”edutainment” e do “culturtainment”.

O plano de integração implica envolver a comunidade, proporcionar múltiplas experiências em torno dos múltiplos recursos – património, natureza, história, vinho, tradições, gastronomia, entre outros.

Urge pensar em produtos e sub-produtos de nicho e em cross-selling entre produtos e regiões. Existe uma relação fundamental entre o touring cultural, gastronomia, natureza, património e cultura. Temos que estruturar, na estratégia de desenvolvimento do destino, vários produtos em torno do património. Só assim conseguiremos um produto muito bem definido para um concelho, uma região e para um país. Precisamos de um produto turístico estruturado, que na maioria das situações não acontece.

A ILM considera que é fundamental uma reengenharia do património nacional para criar interessantes, competitivas e sustentáveis “heritage visitor attractions”. Sendo esta uma maneira de capitalizar e optimizar estes recursos de grande interesse turístico.

AMBITUR – O que pretendem, e resumindo a nossa conversa, é fazer a reengenharia do património na óptica do visitante nacional e internacional?
ILM – Sim. Desenvolvemos no LTC o modelo Cultural Experience Hub (CEH), que tem por base o património, a sua valorização e o seu desenvolvimento no contexto do turismo e da comunidade onde está inserido. Nitidamente um caso em que “a soma das partes é maior do que o todo” devido às possíveis sinergias e às mais-valias criadas entre todos aos mais variados níveis. A aplicação do modelo CEH ao património confere-lhe um poder suficiente forte e estruturado para motivar, informar e fomentar a descoberta dos outros atractivos locais, regionais ou nacionais, por parte dos visitantes/turistas. Este modelo tem um forte impacte na comunidade local, pelo seu carácter catalizador cultural, económico e social, potenciando a procura turística. O destino, neste contexto, é um todo e o monumento âncora assume um papel preponderante enquanto catalizador do desenvolvimento da vila, concelho, cidade, região onde se encontra, e de todas as experiencias que esse território proporciona ao turista desde a gastronomia ao contacto com o artesanato e os artesãos.

Esta abordagem sistematizada do turismo e da cultura foi construída com base no nosso conhecimento de business planning, no nosso compromisso com a sustentabilidade e na capacidade de ler as necessidades do mercado, identificar as oportunidades e procurar sinergias.

AMBITUR – O que a ILM está a fazer então no terreno a este nível?
ILM – Fizemos um grande investimento, um “trabalho de casa” cuidado, este ano. Nós fazemos consultoria/advisory e temos que estar bem fundamentados nas nossas áreas de intervenção, conhecer o terreno e as pessoas que estão no meio. Depois de termos encarado esta área como prioritária para nós, fomos para o terreno pesquisar, tanto no país como no estrangeiro. Começámos em desenvolver a nossa rede para cobrir todas as áreas de especialização que não detínhamos no nosso núcleo local, com destaque para dois associados em Inglaterra com quem já trabalhámos há anos, um líder ao nível do conceito, negócio e operações na área de visitor attractions, outro de design do visitor attractions sendo uma das mais conceituadas empresas mundiais na projecção das partes expositivas. Tivemos recentemente uma experiencia gratificante com uma outra empresa, desta vez nacional ligada à arqueologia que complementou a nossa equipa nesta área específica e comprovámos que há boas práticas e visão em Portugal também. Começámos também para construir conhecimentos a nível institucional, investindo no nosso próprio aprendizagem e sensibilização para os desafios que o sector enfrenta para melhor ajudar na procura das soluções. Sem excepção fomos muito bem recebidos. Há uma necessidade de convivência entre património e turismo que traz benefícios mútuos, além dos outros impactos que possa produzir nas comunidades etc. As autoridades começam a reconhecer a oportunidade e a necessidade para esta valorização ser feita com profissionalismo e qualidade. Actualmente não só temos conhecimentos próprios no sector, como também criamos uma rede de profissionais que partilham da nossa visão e rigor na execução. Aliando isto aos conhecimentos já conhecidos da ILM de estratégia e mastrer-planning para os projectos, constituímos uma força única neste mercado.

AMBITUR – Balanço do que viram no terreno relativamente ao aproveitamento do nosso património?
ILM – Hoje em dia as instituições estão ao par das melhores práticas existentes quer a nível nacional como internacional, e facilmente conseguem referências. Não obstante ainda há bastante trabalho por fazer, em todo o lado, infelizmente ou felizmente. Existe potencial para diferenciar o nosso destino de outros. Temos activos, agora temos de pensar como os utilizar e optimizar enquanto recursos também turísticos e sustentáveis. Estamos atrasados face a outros países europeus. Por exemplo, voltando ao recente investimento feito em Inglaterra, este não visou apenas intervenções em grandes monumentos, mas também em pequenas vilas no interior. Através das suas “heritage visitor attractions”, Inglaterra conseguiu posicionar-se enquanto destino cultural e isso é público.

Em Portugal há muitas oportunidades. Estudámos, por nossa iniciativa, a zona entre Lagos e Sagres e existe ali um património deveras importante; que nos faz regressar ao Promontório Sagrado, hoje em dia mais conhecido pela Fortaleza de Sagres. Silves é outra referência, tantas peças, tantos activos de património, mas uma história imperceptível para a maioria dos países. Qualquer turista que visite o Algarve pelo Sol e Mar ou o Golfe, recebe resposta à sua motivação, mas se procurar conhecer mais, saber mais do país, depara-se com uma barreira. Existe a oportunidade de dar a conhecer aos turistas mais sobre as nossas origens, a nossa cultura, a nossa história, e garantir que quando estes regressam a casa carregam consigo este conhecimento e a vontade de partilhar e até mesmo regressar para viver outras experiências.

Estamos no país dos exploradores que desbravaram o mundo, dizemos isso aos turistas, mas eles querem que lhes contemos e lhes mostremos mais.

AMBITUR – Dos contactos e rede de conhecimentos que criaram a nível nacional aperceberam-se que as pessoas estão sensibilizadas para esta temática? Ou seja, para tornar o património acessível a todos, com as condições ideais?
ILMÉ necessária uma troca de conhecimento, abrir os olhos das pessoas, é necessária uma filosofia de Barak Obama “Yes, we can!”. Não quero minimizar os passos já tomados – tentativas significativas e bem-intencionadas no campo de património, recorrendo a um dos orçamentos mais pequenos do estado português.
Trazemos um novo olhar à integração do património com o turismo gerando à sua volta o essencial à sua sustentabilidade e convivência com sucesso. É preciso educar sobre o impacte que um investimento deste nível tem para o turismo, para as economias locais, para a preservação da história, dos valores culturais, das tradições, etc. O nosso papel é tentar transmitir estas mensagens e conceber e implementar as necessárias soluções a nível local e regional. Sabemos que o contexto económico não é o melhor, mas urge pensar no futuro. O importante é que esta matéria seja colocada nos planos estratégicos dos organismos que tutelam estas áreas. Este é o grande desafio, que pode ser aceite ou não. Se houver vontade tem de se traçar o caminho. A crise financeira, por outro lado, também pode criar condições para uma mudança de mentalidades, estes responsáveis devem preparar agora o seu futuro. Precisamos de uma mudança de mind-set, o nosso papel é demonstrar como podemos ser úteis nesta nova dinâmica, espero eu.

AMBITUR – Consegue identificar algum exemplo no país que corresponda de uma estratégia integrada do património com a vertente turística e social?
ILM – Acho que Belém tem um potencial enorme, porque é em si mesmo um cluster “natural” de “heritage visitor attractions”. É possível reter a atenção de um visitante naquele espaço durante dois ou três dias se forem proporcionadas todas as condições à sua descoberta. Há pessoas que vão a Paris com o objectivo de procurar uma experiência cultural e precisam de efectuar enormes deslocações dentro da própria cidade. Em Belém temos uma concentração de 8/10 atracções, com variados temas e abordagens. Este local é uma surpresa para a maioria das pessoas que vem a Lisboa. O potencial existe e, no nosso entender, existe também a obrigatoriedade de optimizar a experiência do visitante e turista. Porque esta zona não tem um masterplan específico, a sua oferta não está integrada, tem no seu meio linhas de comboio e estradas e tem que se atravessar um túnel para chegar à zona ribeirinha, que não é uma boa experiência, não há estacionamento, nem sinalética. Há formas económicas e pragmáticas de minimizar estes obstáculos, sem precisar de ir até a utopia de seguir soluções como rebaixar a linha ferroviária etc, e que valorizam a experiencia de quem a visita. Se o turista visitar Belém, sai com uma impressão muito favorável, mas garanto que podia sair muito mais educado, informado e motivado sobre o país e a sua história. Uma maior motivação pode fazê-lo voltar a Lisboa ou divulgá-lo junto dos seus. Por outro lado, o papel de hub implícita numa atracão desta importância, é de fomentar a vontade do visitante continuar a sua experiencia junto das outras “visitor attractions” nacionais com base em património, sendo que o património com a reengenharia que propomos deve promover outros centros de património do país.

AMBITUR – Estamos aqui a falar numa área onde estão duas das entidades que os empresários turísticos consideram mais burocráticas e “empecilhos” ao desenvolvimento da actividade turística, o IGESPAR e IPPAR. Num curto espaço de tempo será possível fazer mudanças nesta área, ou seja, colocar os empresários turísticos a falar a mesma língua que estas entidades?
ILMTem sido uma experiência muito interessante e gratificante trabalhar com o IGESPAR e ver do outro lado do espelho as dificuldades com que se debatem constantemente. A nossa experiência com o IGESPAR indica que há esta abertura. Não tenho qualquer dúvida que vai demorar tempo, e o papel da ILM, neste caso, é no sentido de ajudar a estabelecer a ponte. Pouco a pouco podemos integrar o turismo com o património e cultura. Saber o custo, o benefício e o impacto. E dentro do “mind-set” do Ministério da Economia saber como podemos criar um modelo mais sustentável economicamente. Há visitantes. Há turistas. Pode haver mais? Podem gastar mais? Querem ter uma “Value for Money Experience”? Então temos de cobrar mais, mas assegurar que essa experiência é correspondida com a qualidade devida. Esta é uma oportunidade para optimizar a experiência dos turistas e aumentar as receitas do sector.

Para além do IPAR, IGESPAR, incidem nestas áreas CCDR, autarquias, Estado, Ministérios….
Juntar estas entidades é um desafio enorme. Alguém tem que assumir aqui o papel do promotor. O nosso (ILM) mind-set será de promotor, ou seja, o papel de juntar as várias entidades. Com vontade e visão todos iremos conseguir ultrapassar as dificuldades.

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2 responses

25 11 2010
Especial – Seminário Promover Turismo. Capitalizar Cultura « I-blog

[…] O património cultural é único a cada país e espelha a sua identidade (turística) – Entrevista…No final de 2009, a ILM decidiu avançar com a criação de um Laboratório de Turismo Cultural (LTC) concentrando esforços internos e reunindo um conjunto de parceiros especialistas em áreas como o planeamento, design, sustentabilidade e operação de “heritage visitor attractions”, no desenvolvimento de uma abordagem crítica de análise e optimização e valorização do património histórico cultural nacional. Apesar de Sagres, Sintra e Belém serem dos locais mais visitados do país, com milhões de turistas, estão sub-aproveitados ao nível do contributo que dão à projecção da imagem nacional e ao nível das receitas que conseguem gerar. […]

2 12 2010
Isilda Xavier

Estou ligada ao sector de turismo e, pertenço a uma Associação com fins culturais e desenvolvimento turístico de uma região dos arredores de Lisboa.
Consciente também que há lugares portadores de potencial turístico que deve servir de “ancora” ao desenvolvimento, entendo também que o potencial turístico tem de ser criado todos os dias através de boas práticas (urbanísticas, culturais, desenvolvimento económico, etc.).
Numa altura em que a sustentabilidade está na ordem do dia, as propostas devem assentar neste princípio de desenvolvimento sendo as pessoas dos lugares essenciais para tornar possível, o que numa primeira abordagem, por vezes, não passa de um sonho.

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